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20.5.08

Vanitas


(Gustave Courbet, Un enterrement à Ornans, 1849-50, Musée du Louvre)

Colidindo com a escarpa da Roche du Mont, o cortejo fúnebre reúne junto do coval o microcosmo de Ornans. A banalidade do ritual derradeiro é documentada sem recamos e atavios supérfluos. O branco e o negro opõem-se violentamente. A estrutura realista da composição é enganadora: o olhar do pintor não é distanciado, Courbet conhece todas as personagens que une na imensidão da tela. No lado esquerdo da pintura, uma testemunha improvável observa escrupulosamente o cerimonial definitivo: o próprio morto, Jean-Antoine Oudot. O avô de Gustave Courbet.

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Weekly Review


Amanhã, pelas 19h, na Casa do Brasil de Lisboa, será apresentado o livro «Elo, Entrelinhas & Alucinações», de Daniel Ricardo Barbosa, por Vítor Vicente e por Cristiane Pasquini.

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19.5.08

100 anos de paixão: só eu sei porque não fico em casa #54


(João Moutinho com a Taça Foto: Lusa)

A Rennie é indubitavelmente uma boa pastilha para a azia mas eu, que já padeci de uma malfazeja úlcera do duodeno, aconselho a todos os meus amigos portistas o Ogasto 30mg, comprimidos orodispersíveis com sabor a morango. Esqueçam o Olegário (que até errou mais a favor do FC Porto) e para a próxima exijam ao Jesualdo uma equipa à altura de uma final.

(Paulinho e um herói improvável: Rodrigo Tiuí Foto: Mário Cruz e Inácio Rosa/Lusa)

p.s. Nós é que somos «Calimeros»?!

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17.5.08

O que é um «Curate»?


(Via Confraria da Tainada)

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16.5.08

Charles Renouvier: o infinito é um projecto

Os aviões a jacto, a internet, o telégrafo e mais não sei o quê encurtaram as distâncias, diz-se, tornaram o mundo mais pequeno. Dei conta disso quando os vizinhos de baixo, furiosos com o ranger nocturno do meu leito nupcial, me instaram: «Ó porco sujo, vai morrer longe!». Eu quis fazer-lhes a vontade - afinal, até a minha própria esposa detesta os gritos que acompanham invariavelmente o meu orgasmo - e andei, andei, andei (andei ainda um pouco mais que isso) mas não consegui afastar-me o suficiente. E acabei, como já perceberam os menos distraídos, por nem sequer morrer*.

*Grande cromo, pensam vocês, se tivesses morrido como é que contavas esta história tão estapafúrdia? (A verdade é que se conhecem relatos de pessoas que regressam do mundo dos mortos mas isso são aventuras que não me interessa aprofundar agora).

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100 anos de paixão: só eu sei porque não fico em casa #53

15.5.08

Passeio Público

(Descalçar a bota)

Pode parecer estranho (e é, sem dúvida) mas sempre que ouço falar num “tabu” em torno da (re)candidatura a um cargo político, essa excentricidade de conduta programática (seja lá o que isso for) de alguns políticos portugueses, recordo-me das palavras de Robert Browning: “(…) quando a luta começa dentro de si, um homem vale alguma coisa”.

Argumento: qualquer político que adopta (conscientemente ou não) a estratégia do “tabu” veicula a ideia de que, no seu íntimo, contendem a inclinação para o afastamento voluntário das lides políticas (depois de um auto-satisfeito “trabalho bem feito”) e o espírito “patriótico” de missão. Esta “luta” interior é relevante: mesmo não valendo muito, o político valoriza o seu perfil eleitoral ao persuadir as gentes que não deseja a secretária do poder ou que não está agrilhoado a ela. O propósito é singelo: mostrar modéstia e abnegação democráticas.

Os “tabus” de Cavaco Silva, por exemplo, são famosos. Em Fevereiro, alguma comunicação social vislumbrou indícios do famoso “tabu” em declarações de José Sócrates numa entrevista televisiva.

Na semana passada, durante o lançamento da candidatura de Manuel Oliveira à concelhia de Coimbra do PSD, Carlos Encarnação insinuou a sua recandidatura à presidência da Câmara Municipal. Sem aludir directamente ao assunto, o autarca conimbricense provou conhecer bem a arte da metáfora, mostrando-se disponível para novas caminhadas eleitorais com os seus velhos e sólidos sapatos.

Não configurando o molde clássico do “tabu”, as afirmações ambíguas de Encarnação podem ser entendidas como uma forma de tomar o pulso aos eleitores e, porque não?, aos militantes do seu próprio partido. Depois de dois mandatos em que alguns projectos estruturantes para a cidade, como o Metro Ligeiro de Superfície, conheceram retrocessos substanciais e talvez perspectivando a “balcanização” e a falência sistémica do PSD nacional (e o imaginável revés eleitoral nas legislativas de 2009), Carlos Encarnação parece querer submeter-se ao parecer e à sentença populares antes do justo tempo eleitoral.

O presidente da Câmara de Coimbra percebeu que a sua alegoria será avaliada e dissecada até ao osso. Percebeu, acima de tudo, que o ar do tempo é desfavorável e sugere alguma prudência. Os caminhos são poucos e difíceis e Encarnação sabe que, depois de calçados os sapatos, poderá achar uma bota difícil de apaziguar: a derrota nas próximas eleições autárquicas.

(Ontem, 14/05, no Jornal de Notícias)

Ler também: A alegoria dos sapatos, de Paulo Valério

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French Music #twenty five

Nina Nastasia - Counting Up Your Bones

(Your bones glide in a silent tear)

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14.5.08

Rameau

O enfado e o nojo podiam ser um pouco mais veementes mas, vá-se lá saber porquê (por acaso sei*), o dia vai acumulando inestimáveis venturas e regozijos e o informe da miserável visita de uma delegação do PCP ao Império do Meio não fez mais que atrasar por alguns segundos a (irrepreensível) conduta fisiológica do meu sistema digestivo. Saber dos rasgados elogios dos comunistas portugueses aos êxitos económicos chineses foi motivo para uma ténue, quase imperceptível, eructação (mas não estou certo que tal performance sonora não se deva ao inverosímil conchavo de um penne alla arrabiata com um fino mal tirado). Isto dito, remanesce a premente questão: quando é que Jerónimo de Sousa torna a denunciar a deriva autoritária do governo de José Sócrates?

*...


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13.5.08

13 de Maio


(Jean-Baptiste-Camille Corot, La Solitude, Souvenir de Vigen, 1866, Oil on canvas, Colección Carmen Thyssen-Bornemisza)

Corot anota e fixa a realidade inescapável (a observação substitui a imaginação, mas isso é óbvio). É impossível não evocar Purcell (ou melhor, Antoine Girard de Saint-Amant*): «O solitude, my sweetest choice!». A insípida figura humana (uma sombra ilusória) ajeita um discreto pretexto para uma fuga à espessa tirania da vegetação em primeiro plano. É a luz, apartada sobre a água, que conforta o nosso melancólico, solitário, olhar.

*(La solitude)

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12.5.08

Do Angelus de Millet


A dupla silhueta convoca, inevitavelmente, o fracasso e uma resignação consciente face ao mundo, face à ordem natural, pré-consumada, que amarra e submete cada biografia às disposições formulaicas dos deuses. Apesar disso, um rosto de superioridade não forçada, de orgulho ingénito, encima inexplicavelmente as figuras de prece.

A noite próxima, a fluência esbatida da luz (o devir final do tempo), falsifica a autoridade mística do momento. Revela a insolência de um deus sem homem, de um deus alheio a tudo que é do homem.

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10.5.08

For twenty nine years


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9.5.08

Ligeiramente enfastiado

Permitiu que o sorriso se desvanecesse lentamente enquanto olhava as flores das ervilheiras que desafiavam a comovente escuridão da terra. Nesse momento tudo se clarificou: é preciso estar sempre insatisfeito, acreditar no que o vagabundo conta entre as moedas e cagar em casas de banho públicas (assim, não tens que limpar a merda que fazes).

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8.5.08

Passeio Público

(Uma sombra de outra sombra)

Nas ruas da cidade, desde os Arcos à Portagem, remanescem as sobras que evocam o caos da festa. A recolha do lixo foi diligente e eficaz mas há sempre uma lata, um copo de plástico ou uma flor de papel que ilude o olhar treinado dos funcionários camarários que, no final do cortejo da Queima das Fitas, procuram desembaraçar o percurso dos carros floridos de todas as reminiscências festivas (leia-se: de toda a sujidade) que se espraiam indolentemente pelo chão. Tudo como dantes. As coisas permanecem iguais mesmo quando mudam.

Na última crónica (Jornal de Notícias, 30/04/2004) aludi às modificações impostas pelo Conselho de Veteranos ao programa da Queima das Fitas. O cortejo realizou-se, pela primeira vez, ao domingo. Todavia, não fosse a caução tranquila do calendário, muitos acreditariam que a semana ia quase a meio e que aquela tarde era de terça-feira. De um ano qualquer.

A memória é fluida, uma maré de pensamentos. Por vezes, cria passados quando os deveria recriar. A verdade é que, no último domingo, durante o cortejo (dos Grelados, agora) vi-me reconduzido a todos os cortejos a que assisti no passado: os eventos mais genéricos do desfile, todas as suas minudências, revelando-se em concordância com um plano antigo, presciente e costumado.

Nos jornais, as descrições e as fotografias que se referem à última tarde de domingo remetem-nos para um paradoxo nebuloso: o cortejo mudou, o cortejo é o mesmo. As capas esvoaçantes, a desarrumação de cores e papel dos carros alegóricos, a detonação dos abraços, a contestação irónica, os bancos desdobráveis, as famílias ensoberbecidas, o meneio ébrio dos “éférreás”, as pipocas e os balões. Avatares de terno retorno (ou a inescapabilidade do cliché). Faces de um romantismo extemporâneo que sustentam o mito da Queima das Fitas.

Na realidade, alguma coisa mudou – um detalhe, apesar de tudo, relevante. As garrafas de vidro foram proibidas no cortejo. Uma cerveja enlatada, mau grado o enjoo que provoca aos adeptos da garrafa, embebeda e anima o estudante mais sequioso: isso é certo. Mas o seu recipiente não castiga e fere como os (desleais) pedaços de vidro que atapetavam as ruas em desfiles passados.

Ainda assim, dezenas de estudantes (e não só) foram assistidos pelo INEM, a maioria das quais devido a excessos de consumo de álcool. Os incidentes esporádicos de violência ou a sinistra incineração criminosa de carros alegóricos embaraçaram, também, o trajecto dos Grelados.

Contingências da festa. As fitas foram as de sempre.

(Ontem, 07/05, no Jornal de Notícias)

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6.5.08

Semantização

Os meninos hão-de escrever uma palavra que não será mais que isso.

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3.5.08

A truant finds home

É amanhã, é ridículo. I'll be there.

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1.5.08

Passeio Público

(Nesta cidade onde fomos jovens)

Parece um epitáfio: nesta cidade onde fomos jovens. Ainda não sou um velho (vem longe a condição) mas envelheço, torno-me memória. O meu corpo é o mesmo, a cidade também. “Aqueles” sete dias, não. São nove.

Sete dias (nove) que, como dizíamos dantes (“antigamente”), valiam por dois meses nas Caraíbas. Agora não valem grande coisa, digamos que valem apenas o que valem, sete dias (nove) de vida mediana, trivial: acordar às nove, banho e dentes, pequeno-almoço, trabalho, almoço, café, trabalho, café, casa, cama. Vinte e quatro horas vezes sete (nove) disso. Não estou para fazer as contas. Não é disso que quero falar.

A Queima das Fitas. Agora são nove dias. O Cortejo é ao Domingo. O Cortejo é dos Grelados (e não dos Quartanistas). O Quim Barreiros não vem (o melhor da noite do Cortejo talvez fosse a romaria ao palco principal para prestar humilde e sincera homenagem ao Quim, bardo popular e animador de multidões). Há uma mascote: o risonho Fitas. A Serenata Monumental que, tradicionalmente, assinalava o começo das festividades, partilha a noite com o Parque.

A Queima das Fitas? Uma festa de estudantes ou um festival de Verão (em Maio)? As diferenças são poucas - na primeira, as pessoas usam traje académico e não as coloridas pulseiras de plástico. O resto é negócio. A alma já não se vende, nunca existiu.

Isto dito, não abomino radicalmente a essência das alterações ao programa da Queima das Fitas de Coimbra. Não partilho a ideia de que a tradição deve permanecer imutável e encerrada numa espécie de cápsula onde qualquer metamorfose se detém. A tradição releva sempre de um passado, é certo. Um passado que se usa, ou não, na construção do presente. Esse é o encanto da tradição, a sua fluidez na constância. Resta a adaptação à incerteza do que se prepara com afinco na Padre António Vieira. As pessoas vão gostar. Não é difícil.

A nossa hereditariedade deve ser usada e não negada, observou sensatamente Eliot. Ideia ambígua, e frágil, diante das promessas enleadas na mudança e na rebeldia oposta à tradição. Tudo isto tem um preço. Pago por uma cervejeira e pelas famílias domingueiras que não hão-de faltar aos abraços satisfeitos do Cortejo.

Nada disso interessa. A festa continua.

(Ontem, 30/04, no Jornal de Notícias)

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30.4.08

700 anões (+2)


(Rua do Arco da Traição, Coimbra)

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700 anões (+1)


(Algures entre o Rossio e o Largo do Cauteleiro, Lisboa)

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Mil novecentos e sessenta e dois?

«Em certos países bárbaros, de costumes e leis que desagradam a Deus Nosso Senhor - talvez porque os seus habitantes não sejam boas biscas - a educação dos meninos e das meninas está a cargo do estado que, desta forma, despende, perdulariamente, fabulosas somas que poderiam ser aplicadas ou em armamentos, ou em beneficiar os cavalheiros que constituem os mais sólidos esteios da ordem e da moral tradicionais, ou em levantar monumentos comemorativos e outras manifestações de respeito pelo passado histórico.

Aqui entre nós, mercê do sensível coração e da bondade natural do nosso povo, essa educação fica a cargo das respectivas famílias, o que permite desde logo que cada um tome o lugar que lhe compete na pirâmide social a que está irremediavelmente ligado.»

(José Vilhena, Branca de Neve e os 700 anões, pp. 9-10)

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29.4.08

Estéticas da Morte #trinta e cinco

Ao sentir enfim o «hálito da morte», ocorreu ao velho dentista a ideia (curiosa, se atendermos à solenidade do momento) de que a habilíssima ceifeira cuidava da boca com o zelo de alguém habituado a beijos voluptuosos, cinematográficos e (aqui a reflexão interrompeu-se) manifestamente fatais.

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700 anões


(Bairro Alto, Lisboa)

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28.4.08

Do comércio divino

«Desde sempre os homens oraram pelo essencial, suplicando chuvas onde só há deserto, clamando por sol onde apenas há gelo. A relação dos homens com o sagrado foi sempre algo comercial. Os deuses satisfazem as nossas necessidades, nós prestamos culto aos deuses. (...) Os homens vêem Deus no que lhes falta.»
(Henrique Fialho)

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Salomé


A cabeça, separada do corpo pela redundância do cutelo, demorava-se a morrer no aconchego agrário do cesto de vime.

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25.4.08

Factos

24 de Abril de 1974
Taxa de mortalidade infantil: 37,4 por mil
Taxa de analfabetismo: 33,7%
Lares sem electricidade: 36,2%

25 de Abril de 2008
Taxa de mortalidade infantil: 3,3 por mil
Taxa de analfabetismo: 6,2%
Lares sem electricidade: 0,3%

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24.4.08

Passeio Público

(Um voo derradeiro)

A secura melancólica do céu das cidades é, não poucas vezes, insultada pelo ruflar anárquico de asas, sombras excessivas dilacerando as alturas. Ponderem o cenário, tão trivial. É fácil imaginá-lo. Algumas aves são resilientes, adaptáveis, e conquistam naturalmente os centros (ruidosos, alterados e poluídos) das grandes cidades.

Em Coimbra, os pombos, essas alimárias penugentas de praças de fim de tarde e mãos velhas de milho, reinam sobre o arco celeste da Baixa. Conheço algumas pessoas que não se sentam nas esplanadas porque têm medo dessas aves tão prolixas. Há quem lhes chame «ratos de asas», tal a repulsa que excitam. As colónias de pombos que ocupam a zona urbana da cidade usurpam as mesas dos restaurantes e cafés, arruínam o património edificado e acertam nos incautos passeantes com a imundície fisiológica.

As tropelias de tão caótica hoste são excessivas e indigestas, qualquer um reconhece isso. Os comerciantes e os biólogos, os turistas e os responsáveis pelo Centro Histórico estão de acordo numa coisa simples: os pombos são uma praga citadina, um incontestável flagelo urbano. É por isso que a benevolência com que esses seres aéreos eram encarados se esgotou. Nada permanecerá como dantes. A solução defendida pelo director do Gabinete para o Centro Histórico, Sidónio Simões, corteja a possibilidade de «remodelar» as aves, designadamente o seu comportamento reprodutivo, transformando-as em atracção turística. A estratégia ideada contempla a permissão de alimentar os pombos com uma espécie de alimento contraceptivo que dificulta a procriação.

A partir daqui torna-se difícil não pensar numa certa violência antropocêntrica que sempre é exercida sobre o horizonte biológico. É, pois, irrecusável a noção do homem representado como pastor da «animalitas», exercendo uma vigilância eleita no seu próprio interesse, na sua própria conveniência. A «solução» que visa os pombos de Coimbra pode ser metodologicamente eufemística quando comparada com a proposta de esterilização dos cães de raças consideradas perigosas; todavia, o princípio moral é o mesmo e implica a radicalidade de uma conversão forçada a um ciclo anti-natural.

O equilíbrio é delicado. A necessidade de controlar os danos provocados pelo descontrolo demográfico da população de pombos no centro da cidade redime, de certa forma, a dura ingerência humana sobre o ciclo reprodutivo das aves. Os grandes males requerem drásticos remédios. A cidade transformar-se-á num enorme parque zoológico, num lugar de domesticação, selecção e controlo.

Quando, a 12 de Fevereiro de 2009, se comemorarem os 200 anos do nascimento de Charles Darwin talvez os atropelos causados pelos pombos da Baixa sobrevivam apenas em velhas páginas de jornal. O célebre naturalista inglês, columbófilo entusiasta, preferiria certamente que os bandos de pombos continuassem a turvar o azul do firmamento, junto a Santa Cruz. Eu também. É difícil ser o pastor do mundo.

Ontem, 23/04, no Jornal de Notícias

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Weekly Review

23.4.08

Machismo literário

Não sou homem de um livro só.

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22.4.08

Agenda do desejo

Persiste, é certo, uma evidente nostalgia pelas frases incompreensíveis. É muito cedo, ainda, para o comedimento. Essa escrita resguarda-se na velhice indignada. As palavras destinam-se a ser escritas, talvez lidas e, com toda a certeza, esquecidas. As palavras mudam, os homens mudam - de acordo. Eu não pretendo mudar agora. Arrisco um caminho onde eu sou o meu corpo e a estrada apenas uma estrada.

O futuro planeia-se no google maps. E, aí, Santiago e Ferrol serão apenas o destino possível de todos os abraços lentos, de todos os murmúrios roubados aos teus lábios.

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21.4.08

A clareira

«A pergunta sobre a essência do homem não chega enquanto não nos distanciarmos da prática mais antiga, persistente e ruinosa da metafísica europeia: definir o homem como animal racional.»

(Peter Sloterdijk, Regras para o parque humano, pág. 40)

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French Music #twenty four

Sergei Prokofiev - Ледовое побоище (A batalha do gelo)

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20.4.08

Estéticas da Morte #trinta e quatro

Bonfort e Le Coeur, assassinos, ajoelharam-se e declararam em voz alta o seu arrependimento pelas ofensas feitas a Deus e ao rei. Deus, infinitamente misericordioso (feitio, de resto, amplamente disputado em alguns livros do Antigo Testamento), indultou-os enquanto o Diabo (que aparecera no Paraíso pouco antes, a fim de tratar de umas burocracias) esfregou um olho. O rei, mais pragmático que o bom Criador, fez dos dois assassinos um exemplo: Bonfort e Le Coeur seriam enforcados depois de tomarem um banho veemente e de vestirem uma farpela elegante, costurada numa das melhores lojas da cidade (alfaiataria de Vincent Chalès, filho). Mais tarde, Bonfort e Le Couer, caminhando lentamente para o cadafalso, remiraram-se com gosto nos olhos de belas raparigas do povo. Apesar de acharem as roupas novas um tanto ou quanto apertadas, é possível que tenham perdoado ao alfaiate Vincent esse nada despiciendo pormenor no momento em que o verdugo os ajustou à derradeira, peremptória, gravata.

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17.4.08

Passeio Público

(Futuro em trânsito)

A visita de Mário Lino, o ministro das Obras Públicas, Transportes e Comunicações, a Coimbra é importante, não pelos milhões apalavrados ao betão e ao asfalto, mas por um comovente alento de futuro e bem-estar que prodigalizou sobre a região Centro. Um pequeno sucesso anexado às admiráveis vitórias das obras públicas portuguesas. Que não sejamos surpreendidos pela melodia triunfal dos discursos. A história é conhecida e vem de longe. A economia do país, parecem crer alguns, deverá acordar resolutamente ao som das obras do novo aeroporto e do TGV.

Eis a trágica ironia: depois dos famigerados dez anos de «vacas gordas» durante os quais Cavaco Silva (versão primeiro-ministro) malbaratou uma porção suculenta das ajudas comunitárias em duvidosas obras estruturantes, novamente o «futuro», o «desenvolvimento» e o «progresso» do país e da região se vêem diminuídos e apoucados pelos anseios de construtores civis, governantes e autarcas entusiastas do cimento e do alcatrão.

Exagero polémico, confesso. Nem o governo de José Sócrates reduz as condições de incremento económico à paisagem megalómana da construção civil, nem os projectos de Alcochete e do TGV são obras de incerta consequência estruturante. Também as obras anunciadas por Mário Lino no Salão Nobre da Câmara Municipal de Coimbra, estimadas em 740 milhões de euros, aparentam vital importância no quadro rodoviário e económico da região Centro.

Os 184km de auto-estradas previstos (que contemplam as ligações entre Coimbra e Viseu, Coimbra e Oliveira de Azeméis ou Mortágua e Mangualde) alicerçam as expectáveis e insistidas aspirações do ministro: combater o isolamento geográfico das zonas periféricas, diminuir a sinistralidade, estimular o desenvolvimento regional através da fixação das populações e das actividades económicas.

Qualquer analista imparcial percebe que uma rede rodoviária, por si só, não resolve todos problemas de um espaço tão vasto e diverso. Todavia, as obras indicadas podem catalisar expectativas e vontades numa região que cultiva algum ressentimento relativamente ao poder central. Carlos Encarnação, o presidente da Câmara Municipal de Coimbra, recordou ao ministro que o Centro tem sido (supostamente) esquecido e desprezado. Recorde-se que, anteriormente, o autarca pressentira mesmo uma aversão do Governo à cidade de Coimbra. Uma apreensão exagerada do responsável camarário. Prova-a o anúncio de Mário Lino.

Os governantes da zona Centro não podem amparar o sucesso económico e social da região unicamente na boa vontade do Terreiro do Paço. Para além disso, o julgamento dos próprios erros não poderá ser feito enquanto as culpas do que corre mal recaírem sempre sobre a governação em Lisboa.

Por vezes, a necessidade de impor limites às críticas ao que está para além de nós é a condição necessária para que o nosso olhar estreite sobre os desígnios verdadeiramente importantes.

(Ontem, 16/04, no Jornal de Notícias)

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Weekly Review #2


A Caravana de Rui Manuel Amaral passa no dia 19 de Abril na livraria Gato Vadio (Porto).

(Angelus Novus)

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Weekly Review #1


Lançamento da revista Big Ode em Coimbra (Galeria Bar Santa Clara, 19 de Abril, 22:30h)

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15.4.08

Abaixo de cão

O affair PSD/Fernanda Câncio toma proporções dantescas. Parece que o problema está no facto da jornalista ter e emitir opiniões. E que estas são, por vezes, favoráveis ao PS. Chamem a polícia: um jornalista tem opinião! Depois da baixaria que foi a infeliz alusão ao suposto relacionamento de Câncio com o primeiro-ministro José Sócrates, os dirigentes do PSD resolvem embirrar com a senhora porque esta tem ideias diferentes das suas. Porque não segue, a la lettre, o programa do Partido Social Democrata. Fernanda Câncio não devia escrever programas para a RTP2, Fernanda Câncio devia ser enviada imediatamente para Dachau.

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12.4.08

Muxima

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Clubes que me dão alegrias #1

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11.4.08

100 anos de paixão: só eu sei porque não fico em casa #52

É oficial: a partir de hoje podem dizer mal à vontade do Sporting que eu não ofereço porrada a ninguém (como era, infelizmente, habitual), nem sequer abro a boca a esboçar um protesto. Um clube que tem como presidente um «senhor» que afirma de forma displicente que é preferível o segundo lugar no campeonato português (e consequente acesso à Liga dos Campeões) a uma vitória na Taça UEFA não merece o amor de um rapaz tão sensível como eu. O pior é que continuo a amar este clube dado ao fracasso. Como se não houvesse amanhã. É um caso paradigmático de amor não correspondido*. Toca a todos.

*Au contraire...

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10.4.08

Passeio Público

(Anatomia da palavra)

Num incerto momento, Fausto regressa ao seu quarto melancólico, ascético, e abre a Bíblia no início do Evangelho de João. Lê: «No princípio era o Verbo». Eis o mundo, criado a partir da palavra.

Há qualquer coisa de sagrado nas palavras. Um universo de potencialidades desmesuradas, sublimes. A promessa de completar o mundo, de lhe acrescentar existência. Tudo é lento à superfície, menos as palavras que esticam (em parágrafos inteiros) o cinzento esgotado da realidade. Lembro-me de um trecho de Anne Carson, a poeta canadiana, que cito de memória: «Quando uma história acaba há alguns momentos de silêncio. Então as palavras começam outra vez». Lembro-me de como preciso de reconquistar a cadência do fôlego quando acabo de ler um livro, de como a momentânea suspensão da razão é necessária para que a vida possa insistir e continuar de novo.

Eu gosto de palavras e de quem as escreve e inventa, gosto de lhes descobrir significados íntimos. Gosto de livros: repositórios físicos da palavra, do sentido, das existências possíveis. Um livro é uma insolência criativa. Como a reprodução ou a plantação de uma árvore configura um acto radical de criação, de arrogante desafio à aridez da vida normativa.

Implacavelmente, algumas palavras soçobram na vertigem das horas. Uma nova revista, a MACA (Magazine de Arte de Coimbra & Afins), um espaço de divulgação e crítica de diferentes manifestações artísticas e culturais. O livro mais recente de João Rasteiro, «O búzio de Istambul». Uma editora. Mais do que isso, uma comunidade de leitores: a Angelus Novus, estabelecida em 1993 entre Coimbra e Braga, e agora definitivamente instalada na primeira.

A Angelus Novus demandou sempre o caminho mais tortuoso: o da qualidade e da exigência na selecção de títulos e autores. Privilegiando inicialmente a área do ensaio (Derrida, Eduardo Pitta ou Ortega y Gasset) e a edição de autores clássicos portugueses (Fernando Pessoa ou Bernardim Ribeiro), a editora de Coimbra tenciona prolongar o fundamental desse legado e constituir um catálogo literário mais variado, destinado a públicos diversificados.

Numa conjuntura em que a concentração e uniformização editorial fazem doutrina, a Angelus Novus repensa o livro enquanto objecto coleccionável, avultando a qualidade gráfica das suas colecções. A editora procura acautelar o cansaço estético suscitado pela exuberância supérflua de muitos livros que subjugam os escaparates das livrarias.

Destaco alguns livros. A microficção de Augusto Monterroso («A ovelha negra e outras fábulas») e de Rui Manuel Amaral («Caravana»): escrita curta e solar, minimalismo genial. A «crise académica» de 1969, exumada em «A tradição da contestação» de Miguel Cardina, e essa extraordinária narração auto-centrada (quotidiana, agónica, redentora) de Laura Ferreira dos Santos, o «Diário de uma mulher católica a caminho da descrença».

É esta a víscera do afecto que uma editora pode ainda expor numa cidade como Coimbra. Porque o importante é continuar a ler. Para um dia sabermos, como Borges, se fomos uma palavra ou se fomos alguém.
(Ontem, 09/04, no Jornal de Notícias)

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9.4.08

Matai-vos uns aos outros

Morreu muita gente na Ilíada, e a maioria finou-se à bruta. No Moby Dick morrem quase todos (Ahab e Queequeg também e é pena, eu gosto do perneta e do canibal). Um resistiu: chamem-lhe Ishmael. Julien Sorel não sobreviveu a O Vermelho e o Negro. N’O Sonho dos Heróis, já sabem, conta-se a história de mais um óbito (uma bela morte, de briga e faca). São tantas, as mortes consumadas nas palavras.

Os livros onde não morre ninguém são uma maçada.

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American novel

6.4.08

Sussurro


Como disse o meu amigo Ricardo à mesa do Atenas: «Parabéns aos vigaristas». O crime sempre compensa, ora essa. Em tom mais sério: parabéns aos campeões. Este ano não havia nada a fazer. Como acontece quase todos os anos, aliás.

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4.4.08

French Music #twenty three

MGMT - Kids

[We like to watch you laughing]

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3.4.08

Passeio Público

O regresso ao passado é uma piada impossível. Em consciência, ninguém presume que, trinta e quatro anos após o 25 de Abril de 1974, o exercício da disciplina sobre os cidadãos retorne a um estado de ininterrupta e minuciosa vigilância que caracterizava a política de coerção do Estado Novo.

No entanto, os sistemas de videovigilância que vêm sendo instalados em diversos pontos do país trazem de volta o olhar hierárquico do estado e das polícias sobre o indivíduo e configuram algumas preocupações sobre o modo como a ossatura do poder age pelo efeito de uma visibilidade geral, pouco apegada às liberdades privadas.

A proposta para a instalação de um sistema de videovigilância nas ruas de Coimbra, elaborada pelo Gabinete para o Centro Histórico (GCH) da autarquia, foi aceite sem grandes reparos (só vereador Gouveia Monteiro, do PCP, votou contra) em reunião do executivo camarário. O projecto prevê a instalação de 17 câmaras de vídeo, que vão funcionar somente durante a noite, em todas as entradas da Baixa. Desse modo, toda a zona comercial passa a estar sob vigia.

Este esquema de vigilância adensa em mim algum receio. Relembro inevitavelmente o «Panóptico» de Bentham, o dispositivo arquitectónico que configurava o aparelho disciplinar perfeito, com a capacidade de tudo ver em permanência. A «ciência pouco confessável das vigilâncias», avisa Michel Foucault (a quem se deve o título deste texto), coloca os indivíduos sob observação permanente, compromete-os em toda uma quantidade de ficheiros que os captam e fixam.

Não obstante, algum consolo: as câmaras não captam som e serão colocadas de forma a «não entrar demasiado (sic) na privacidade das pessoas», como explica Sidónio Simões, o director do GCH. E poderão «criar a ideia de segurança nas pessoas». Cria-se a «ideia de segurança» ou criam-se condições de segurança, de facto?

Os problemas de insegurança da Baixa de Coimbra, uma zona enjeitada da cidade, são bem conhecidos. A Baixa é um local inseguro e desassossegado. Os assaltos afrontam constantemente a quietude desprotegida das ruas escuras e estreitas. A videovigilância enforma, para os fautores do programa de instalação das câmaras de filmar, a criação de condições de segurança, através da prevenção dos ilícitos criminais. Creio na bondade deste argumento. Todavia, não julgo que um sistema de videovigilância seja a panaceia que desafie decisivamente os problemas de insegurança daquela área deprimida, quase vazia de gente, de Coimbra.

Para isso acontecer, outras medidas terão que ser ideadas e concretizadas, mais convincentes e inabaláveis a longo prazo. A redenção de um espaço como a Baixa de Coimbra acha-se necessariamente na fixação de habitantes (como, aliás, preconiza Sidónio Simões) e na atracção do investimento privado: bares, lojas, restaurantes e hotéis. Tudo o resto são meros paliativos que impedem, por algum tempo, a ruína de uma zona inteira da cidade.

Ontem, 02/04, no Jornal de Notícias

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2.4.08

Estéticas da morte #trinta e quatro

A pele cheira o movimento, pressente a chegada da água. Excita-se o nó da ferida. O sangue pára na cidade enjaulada. Tudo se passou naquele tempo. As águas subiram e afogaram o deus que as criou.

É isto que fica depois da morte?

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Weekly Review #2


A revista Ler, novamente sob a direcção de Francisco José Viegas, já está na blogosfera.

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1.4.08

Weekly Review

Três sugestões. Livros, como não poderia deixar de ser. Um é este

de Augusto Monterroso, o autor mais portátil do mundo. Pequenas narrativas (género que comecei a apreciar devidamente por culpa deste senhor) de grande fulgor literário. A edição, magnífica, é da Angelus Novus. Eis um micro-conto exemplar (com dedicatória aos alunos e professores da Carolina Michäelis):

O Grilo professor
«Em tempos muito remotos, num dos mais quentes dias do Inverno, o Director da Escola entrou inesperadamente na sala onde o Grilo dava aos grilinhos a sua aula sobre a arte de cantar, precisamente no momento da exposição em que lhes explicava que a voz do Grilo era a melhor e a mais bela de todas a vozes, uma vez que se produzia mediante a adequada fricção das asas contras as costas, enquanto que os Pássaros cantavam tão mal porque se empenhavam em fazê-lo com a garganta, evidentemente o orgão do corpo humano menos indicado para emitir sons doces e harmoniosos. Ao ouvir aquilo, o Director, que era um Grilo muito sábio, assentiu várias vezes com a cabeça e retirou-se, satisfeito de que na Escola tudo continuasse como nos velhos tempos.»
(Augusto Monterroso, A ovelha negra e outras fábulas, pág. 67)

Um outro livro com chancela da Angelus Novus: «Diário de uma mulher católica a caminho da descrença», de Laura Ferreira dos Santos. A fluidez pungente da escrita, em registo diarístico, de uma mulher que luta contra a doença e a morte (um pontapé no estômago, mesmo para quem leu recentemente «As benevolentes» ou «Auschwitz»). Finalmente, o lançamento de mais um livro do poeta João Rasteiro: «O búzio de Istambul» (Edição da Palimage). É na próxima quinta-feira, às 18:00h, na Casa Municipal da Cultura de Coimbra.

«E hoje, na Primavera em que todas as memórias morreram, enterrei o teu nome num canteiro de magnólias de cristal e olho-o de longe, para que a minha boca não se rasgue mais em suas arestas. E ele ferve. E colho flores e as minhas vestes ficarão perfumadas. Regresso quando a palavra se detém no sémen dos amieiros, enquanto construo a memória de que eles fazem parte, com a solidão nua e intacta das vozes que os protegem de mim.»
(João Rasteiro, O búzio de Istambul)

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30.3.08

Estéticas da Morte #trinta e três

Disse Hamlet, olhando a caveira do bobo: Alas, poor Yorick! I knew him, Horatio. Sabem com certeza identificar a popular cena. O que talvez não saibam é que Yorick, a caveira de bobo, quedou-se a meditar do acontecido, solitário, nas curtas distâncias da sepultura, depois do grande príncipe e do amigo se afastarem para outras histórias e aventuras. Contente